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Não sei se sei


(Vivina de Assis Viana)
 

Não sei se sei escrever crônicas, assim como não sei se sei fazer café ou adormecer uma criança.

 

Meu café sai forte e amargo, capaz de agradar apenas alguns poucos fanáticos.

 

Meus filhos sempre dormiram de madrugada, ainda que eu tenha tentado, em noites intermináveis, fazer com que aprendessem a se recolher, serenos, em horários considerados normais.

 

Certamente não aprenderão mais. Ficaram velhos para isso, o mais novo com nove anos.

 

Quanto às crônicas, que andem por onde quiserem.

 

Que retratem o cotidiano, mais questionável que retratável.

 

Que o descubram misterioso, cheio de segredos.

 

Poético, sereno.

 

Como poéticas e serenas teriam sido as noites dos meus filhos, se eles tivessem aprendido a se recolher em horários considerados normais.

 

Se tivessem tido uma mãe um pouco mais competente.

 

Não tiveram.

 

Resta-lhes, noites e madrugadas afora, tomar café forte e amargo.

 

E a partir de hoje – quem sabe? – ler certas crônicas.



E agora?

 

Noite dessas, cheguei do trabalho e encontrei meu filho do meio decepcionado.

 

Em voz baixa, parecendo outra pessoa – seu tom de voz é quase um grito – me puxou pra um canto e, quase chorando, segredou:

 

– Mãe, lembra quando eu te contei que minha classe ia ler seu livro? O Mundo é pra ser voado, lembra? Não tem quase ninguém gostando.

 

– Não?

 

– Só o Caio. Logo ele, que não é tão meu amigo...

 

Tentei dizer-lhe que livros costumam ser como pessoas ou coisas. Uns gostam de uns, ou umas; outros de outros, ou outras. Há até quem não goste de nada, ou de ninguém.

 

– Mas de futebol e de corrida de carro todo mundo gosta, né, mãe?

 

– Nem sempre, filho. Você não vê aqui em casa? A gente sempre vai ao futebol, mas você nunca me viu numa corrida de Fórmula Um...

 

– Isso é porque você não é da minha idade, mãe. Se fosse, gostava.

 

Quase lhe disse, então, que a idade talvez fosse a causa do desencontro autor-leitor.

 

Não seria cedo demais para ler a história da mudança de uma família de Belo Horizonte para São Paulo? Eles perceberiam, além do emaranhado de móveis e caixas transportado pelo caminhão, a complexidade de emoções e ternuras que só o coração pode guardar e transportar?

 

Não lhe disse nada. Afinal, quem é que sabe a hora, o momento e a idade para se ler um livro? Além do mais, o Caio não estava gostando?

 

Não havendo milagre capaz de transformar em legível o que os queridos colegas haviam qualificado de chato, horroroso, sabe-se lá mais o quê, mudei de tática. Convidei-o, e o irmão mais novo, para uma sopa.

 

Nem virou o prato pra cima. O irmão perguntou se ele estava com alguma dor.

 

– Muito pior – disse. – Você acredita que meus colegas não estão gostando do livro da mãe?

 

– E você acredita nisso, seu bobo? Eles só querem te encher o saco!


 

Vivina de Assis Viana, mineira, é escritora. Quem apresenta a mais nova colaboradora do site Primeiro Programa é Leonel Prata:

“Vivina de Assis Viana, esta, sim, escritora excepcional, premiada, gente boa, vai qualificar ainda mais o PP, tenho certeza...”
Saiba mais:

Vivina de Assis Viana (Morro do Ferro, Minas Gerais, 4 de junho de 1940) é escritora brasileira de literatura infanto-juvenil. Formou-se em letras em Belo Horizonte, onde deu aula e morou até mudar-se para São Paulo.

De 1990 até 1999 foi cronista do Estado de Minas Gerais, com publicações todos os domingos no suplemento Fim de Semana.

Em 1977 publicou seu primeiro livro, que se chamou O dia de ver meu pai, e que fez parte da Coleção do Pinto, junto a livros de Wander Piroli e Henry Correia de Araújo. No entato, sua estreia literária já havia ocorrido no ano de 1973, com a publicação do conto A Coisa Melhor do Mundo, no livro Os Contos da Mulher Brasileira.

Com "O dia de ver meu pai", Viana marca o panorama da literatura infanto-juvenil, trazendo ao público leitor uma obra mais madura e que se dispõe a tratar com eles de um assunto até então proibitivo nesta literatura: a separação conjugal.

Ganhou o Prêmio Jabuti de melhor livro infantil em 1989 com a obra O mundo é pra ser voado.

Além de trazer grandes contribuições por meio de obras que tratam de problemáticas do mundo urbanizado, Viana também dispensa ao público leitor doses de serenidade e pacificidade através de livros que se passam no pano de fundo rural. Nestas obras, fica evidente o valor do campo para a escritora.

Sua mais forte influência literária é o escritor brasileiro Graciliano Ramos. Viana, também por admirar a capacidade de Graciliano ser tão conciso e falar com tanta qualidade, escreve textos usando de uma linguagem clara, e direta, facilitando o contato com o leitor. Sobre Graciliano Ramos, Vivina publicou a obra Graciliano Ramos, uma pesquisa sobre aspectos da vida e obra do autor em 1981.

Em 2002 e 2004 foi convidada pelo site do Banco Real a escrever contos online, que, inclusive, se encontram no site até hoje, na guia "Brincando na Rede".

Até hoje, Viana trabalha com consultorias a editores, e produz literatura para jovens e adolescentes. Sua mais nova obra, "Aqui em Nova Iorque, NY in loco" , foi publicada no ano passado pela Editora Positivo. Neste belo livro Vivina relata a viagem de uma mãe e seus dois filhos à cidade de Nova Iorque, pós atentado de 11 de Setembro.

Principais obras

A coisa melhor do mundo, 1973

O dia de ver meu pai, 1977

O rei dos Cacos, 1978

Eu sou isso?, 1985

Suando frio, 1986

Meu dente caiu, 1987

Barulho do tempo, 1987

O jogo do pensamento, 1988

O mundo é pra ser voado, 1989

Sabe de uma coisa?, 1989

Ana e Pedro, 1990

Picasso, 1992

Arco-iris tem mapa?, 1994

Histórias dos tempos de escola, 2002

 Brincando na rede de acordar, 2002

A pipoca do quinto andar, 2004

Aqui em Nova Iorque, NY in loco, 2008

 Os passarinhos do mundo, 2009



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